Enquanto os porteiros conversam sobre a situação do ABC e América, e Pepe, um gato gordo e de pêlo farto, dorme esparramado no tapete azul à entrada do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), em Candelária, lá dentro cientistas estão preocupados em fazer descobertas para mudar a vida da humanidade. Em uma das pesquisas, realizada com camundongos, eles buscam desenvolver o tratamento para doenças neurológicas como mal de Parkinson e esquizofrenia.
O IINN, maior projeto científico privado do país, integra uma rede internacional de grandes instituições científicas que desenvolvem pesquisas na área de neurociência. Ele é coordenado pelo neurocientista Miguel Nicolelis, brasileiro que dirige a Universidade Duke, nos Estados Unidos, e é considerado uma das mentes mais brilhantes da atualidade. É, simplesmente, o homem que fez macacos moverem robôs à distância com a força do pensamento e o gênio que pode devolver os movimentos aos deficientes físicos.
O Nasemana visitou o instituto e conheceu um pouco do trabalho desenvolvido lá. Vinícius Rosa Cota, um dos seis pós-doutores que integram a equipe multidisciplinar do centro de pesquisa, mostrou o aparato tecnológico - equipamentos ultra-sofisticados de nome e funcionamento complexos, cheios de fios e eletrodos - e deu explicações sobre os principais projetos, entre eles, a pesquisa com camundongos transgênicos no Laboratório de Neurobiologia Molecular.
O estudo, que teve início na Universidade Duke, nos Estados Unidos, no laboratório de Miguel Nicolelis, tem demonstrado que a escassez e excesso de um neurotransmissor, a dopamina, alteram profundamente o ciclo do sono de camundongos e produzem quadros neurológicos semelhantes aos apresentados por pessoas que sofrem de mal de Parkinson e esquizofrenia.
"O que se está tentando fazer aqui, por meio desse experimento, é desenvolver tratamento para essas doenças", diz Vinícius, que na verdade está debruçado sobre outro projeto. Ele investiga como o cérebro processa a memória durante o sono.
Vinícius explica que um dos mecanismos cerebrais responsáveis pela construção da memória é a chamada reverberação, que funciona como se o cérebro repetisse inúmeras vezes os acontecimentos mais significativos do dia. Esse fenômeno acontece durante todo o tempo, mas se dá de forma mais acentuada no estágio de sono de ondas lentas, uma vez que não há interferência sensorial.
Em laboratório, o cientista tem comprovado a importância do sono para a memória observando a atividade neuronal em ratos. Primeiro, é dado ao animal objetos com os quais ele passa a interagir e se familiarizar. Depois, durante o sono, é dado estímulo sensorial ao animal. "A idéia é atrapalhar o sono para ver se há reflexos na memória", diz Vinícius. E os testes têm mostrado que sim. "No dia seguinte, ele não lembra de nada", conclui o cientista.
Outro estudo interessante desenvolvido no Instituto Internacional de Neurociências tem à frente o pesquisador André Pantoja, que investiga a função do sonho. Ele quer demonstrar que o sonho pode ajudar a melhorar as habilidades da pessoa.
Num quarto mobiliado, há um computador em que o voluntário fica uma parte do tempo jogando. Depois, ele vai dormir - no quarto também tem uma cama de casal - e recebe eletrodos na cabeça, sensores da atividade elétrica do cérebro. A idéia é saber se, quando a pessoa sonha jogando, isso ajuda em sua performance no jogo quando acordada.
"Os resultados preliminares têm mostrado que sim", diz Vinícius, que entende que, se o sonho um dia foi um mistério, hoje é algo desconhecido, o que é um avanço. "Antes, não conseguíamos sequer fazer perguntas; agora já fazemos"
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